Época NEGÓCIOS conversou com o designer alemão Hartmut Esslinger, que ajudou a Apple a criar “computador branquinho”
Por Soraia YoshidaEm foto de 1984, Steve Jobs apresenta suas criações: homem de visão que nunca diz "não" ao novo
Parecido com uma caixa, o primeiro Macintosh desenhado pelo alemão Hartmut Esslinger caiu no gosto popular. Era 1984 e a Apple ainda era vista como uma startup do Vale do Silício, na California. “Tivemos sorte, Steven Spielberg havia lançado o filme ‘E.T. o Extraterrestre’ e o computador lembrava o ET para muita gente”, contou Esslinger, criador da Frogdesign, em sua passagem pelo Brasil como convidado do MOB Design.
O designer carrega em seu currículo a distinção de ter criado um produto que virou o rumo da Apple. Em 1982, ele assinou um contrato de exclusividade de US$ 1 milhão para criar o visual dos produtos da empresa. Da parceria nasceu o que ficou conhecido como “design Branca de Neve”, os computadores branquinhos que iriam influenciar toda uma geração que descobria as alegrias de ter uma máquina em casa e no trabalho. O design foi aplicado a todos os produtos de 1984 a 1990, começando pelo Apple IIc e pelo Macintosh.O designer alemão Harmut Esslinger: "Pessoas criativas não têm escolha. Elas têm que criar"
Durante 12 anos, Esslinger trabalhou de perto com Steve Jobs, primeiro fazendo produtos para a Apple, depois para NeXT, empresa que Jobs criou quando foi destronada da Apple em 1985. O lendário co-fundador da empresa anunciou ontem (24/08) que passou o cargo de CEO para Tim Cook e agora ficará na presidência do conselho. Essa proximidade lhe deu a chance de entender como funciona a mente de Jobs e também o que faz dele o visionário que levou a empresa a se tornar a maior companhia do mundo. Veja a seguir trechos da conversa que Época NEGÓCIOS teve com Esslinger.
Trabalhar com Jobs
Não é divertido trabalhar com Steve Jobs. Não é. Ele é muito duro. Ele exige sempre o melhor.Criativo? Nada dissoSteve Jobs não é tão criativo assim. Ele é um líder de negócios muito inteligente, que entende que quando fizemos isto [criar o primeiro Macintosh] há 30 anos era uma forma de colocar a companhia no topo do jogo. E ele sabia que isso era uma boa coisa. Não era uma coisa orientada em termos de negócios, era orientada em termos humanísticos.O segredo
Quando Jobs viu meu primeiro design, ele disse “é muito simples”. Mas aí eu respondi: "Você tem que fazer milhões desses. A produção atual não funciona. É cara demais e está nos matando. E também não é bom”. Aí ele me disse "ok, continue trabalhando nisso". Foi uma decisão inteligente. E eu tenho que dizer que ele também foi generoso em me deixar prosseguir com uma coisa que ninguém mais dentro da companhia apoiava. Só o que diziam era "é melhor parar, não é por aí". E acho que esse também é o segredo dele. As pessoas podem trazer qualquer ideia para ele que ele certamente vai olhar. Não existe um não imediato. Ele sempre diz: vou olhar, me explique como funciona.Sigam-me os bonsSe você quer ser Apple, tem que ser o melhor. Isso é uma coisa boa sobre a empresa: ela não faz as coisas pela metade. É como em futebol. Se você não é um jogador bom, que esteja bem preparado fisicamente, você vai jogar 20, 30 minutos. Você tem que ser bom para jogar 120 minutos. Se você quer ser Apple, tem que ser o melhor. Um dos meus amigos desenhou a interface do iPad e do iPhone. Não estava do jeito que ele queria, mas todo mundo insistia que tinha de ser assim. Ele estava contrariado, queria sair e por causa disso, de alguma forma, conseguiu cinco minutos com Steve. E aí ele disse “Pronto, Steve, está aqui o que eu criei, eu não quero isso, é uma porcaria. Esta companhia é uma porcaria, a Apple é uma porcaria. Eu estou indo embora”. Aí Steve virou e falou: “Eu quero o seu produto. Quero que você faça do seu jeito para mim”. Só que para fazer do jeito diferente, havia a necessidade de um investimento multimilionário que precisava ser feito até o produto chegar ao nível de apresentação. E Steve bancou o risco. E esse é o ponto. Ele confia nos outros. Faz questão de se cercar das melhores pessoas do mercado para que possa confiar nelas. Assim, mesmo que seja algo que ele não goste inicialmente, ele sabe que algo bom vai sair dali.
Bom para a concorrênciaUma vez, um funcionário fez uma apresentação de marketing para Steve. E... não era nada boa. Na hora eu pensei: Steve vai ficar furioso, despedir o cara, chamar advogado, algo assim. Ele ficou calmo, ouviu tudo. No final, disse: “Boa apresentação. Eu sugiro que você vá para a IBM, que eles vão te contratar na hora”. Em outras palavras, ele foi despedido naquele momento. Uma outra vez, alguém apareceu dizendo: “Eu tenho um segredo”. E ele: “Guarde para você, adeus”. Essa postura é muito interessante no Steve.

O lendário Apple IIc, que se encontra no Whitney Museum, e o protótipo "Branca de Neve" que direcionou a linguagem visual da empresa: criações de Hartmut Esslinger
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Em foto de 1984, Steve Jobs apresenta suas criações: homem de visão que nunca diz "não" ao novo
O designer alemão Harmut Esslinger: "Pessoas criativas não têm escolha. Elas têm que criar"
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